✎ Entendendo o mito sobre as objetivas com lentes radioativas

Certamente você já ouviu falar sobre algumas objetivas antigas que têm lentes radioativas. Assim como esta, ao longo dos anos foram criadas outras tantas histórias sobre esse mesmo assunto, mas creia que grande parte do que você já ouviu falar é puro mito.

Claro que não é mito que alguns cristais utilizados na fabricação de determinadas lentes apresentavam alguma emissão de radioatividade por conta da presença de  óxido de tório na composição da viscose que era usada naquelas produções. Até os anos 50 não era incomum a presença de outros elementos na composição original do quartzo usado pela indústria ótica, pois isso dependia exclusivamente da formação geológica do solo da região onde o quartzo era recolhido. O fato é que em alguns casos, mesmo após clarificada e purificada, a viscose produzida a partir do quartzo fundido continuava contendo traços de alguns de seus elementos originais.

O tório foi descoberto em 1828 e é três vezes mais abundante no planeta do que o urânio. Demorou a ser utilizado pela indústria em razão de dificuldades operacionais. Durante os anos 60 e 70 alguns fabricantes utilizaram o óxido de tório como aditivo aos cristais óticos na expectativa de ampliar a refração e reduzir a dispersão de luz, o que viabilizava. Esse uso foi mais massivo na produção de instrumentos óticos de aplicação científica e acadêmica, tais como microscópios e telescópios, mas não foi muito intenso na fabricação de lentes fotográficas por não ter apresentado resultados realmente significativos que justificassem o custo de sua aplicação.

Um dos mais difundidos desses mitos versava sobre a qualidade ótica diferenciada das lentes radioativas, o que na verdade é um enorme contra-senso, se imaginarmos que quanto mais puro era o cristal maior era sua refração de luz e menor era sua dispersão. Então não podemos considerar que apenas pelo fato de ter sido usado óxido de tório na lente ela seria mais primorosa do que uma lente fabricada com viscose que gerasse um cristal de grande transparência. 

Outro mito conhecido é o de que a presença do óxido de tório na composição de alguns cristais os tornariam amarelados ao longo dos anos. Isso é um pensamento induzido pelo fato de que em algumas de suas composições o tório escurece gradativamente quando em contato com o ar, chegando a ficar totalmente preto. Algumas lentes de objetivas antigas realmente sofriam processo de amarelamento, mas esse processo não era causado pela ação do óxido de tório. Os grandes vilões na verdade eram as películas que cobriam as lentes (popularmente conhecidas como coatings), que ocasionalmente apresentavam mudança na sua coloração ao longo dos anos de uso, causando o mesmo efeito de um filtro amarelo suave na frente da lente.

Um mito menos difundido mas também divulgado era o do efeito prejudicial da radiação à saúde dos usuários, que igualmente não se justifica em função da presença dessa radioatividade não ocorrer em nível tão significante e pelo uso dessas objetivas "radioativas" não se dar tão continuamente para chegar a causar risco.

Enfim, a mera presença de do óxido de tório não ocasiona nenhum diferencial notável nas lentes, mas ajudou a sustentar indevidamente a manutenção de preços mais altos para algumas dessas objetivas. Portanto não pague mais caro por objetivas com lentes radioativas, a menos que você queira ter uma como souvenir...